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11 de julho | 14:46

Na onda da mineração, vamos surfar ou nos afogar?

Confira o artigo escrito por Luis Maurício Azevedo, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM) e vice-presidente do Conselho Temático de Mineração (Comin) da Confederação Nacional da Indústria, e José Fernando Coura, presidente do Sindiextra MG. 

O setor mineral, além da solidariedade que tem praticado nesta crise, precisa ampliar o seu envolvimento na geração de riquezas do Brasil e o caminho é ampliar a participação de seus investidores via bolsa de valores e compartilhamento dos ganhos. Neste momento, em que países se enfrentam, na dúvida sobre retomar a normalidade ou manter o isolamento social para reduzir o contágio na pandemia mundial do novo coronavírus, nossos líderes se dividem entre aqueles que se dedicam a agir e os que simplesmente somem do cenário. Inúmeros exemplos de superação e solidariedade estão acontecendo em todo o mundo. De onde menos se espera, ali brota a esperança.

Esta é a marca do nosso povo. Na mineração não está sendo diferente. pois, estamos agindo com total solidariedade. Se crescem números de casos de contaminação e mortes advindos da COVID-19, na mesma proporção, crescem as iniciativas empresariais, como uma resposta à sociedade diante do caos da saúde e da ausência de ações coordenadas de enfrentamento. Exemplo dessa proatividade do segmento privado é a multiplicação, nas mineradoras, de distribuição de equipamentos de proteção individual e dos testes para detecção do vírus pandêmico. 

Solidariedade 

Se olharmos o setor mineral com os “óculos do tempo”, vemos que, depois de ter sido apontado como vilão durante anos, o segmento dá provas ímpares de solidariedade. A Vale, depois de anunciar investimentos de U$ 2 bilhões em redução de carbono, foi, nesta semana, apontada como a segunda maior doadora, juntamente com Sesi/Senai quinto maior doador para ações de tratamento de vítimas da COVID-19, pela revista Forbes – um total de R$ 500 milhões e R$63 milhões respectivamente.

E mais: a Anglo American, além de doar R$ 20 milhões ao combate da pandemia, anuncia mais R$ 2,4 bilhões de investimento em energia renovável, demonstrando o seu compromisso com a sustentabilidade do planeta, que passarão a corresponder a 30% de sua matriz; o Grupo Votorantim doou cerca de R$ 50 milhões para ações relacionadas ao combate do contágio do novo coronavírus; a Mineração Rio do Norte, R$ 4 milhões; e a Kinross, por sua vez , repassou R$ 2,5 milhões, em Minas Gerais. Tudo isso mostra as mudanças e o reposicionamento das empresas, numa transformação que a sociedade e as lideranças de defesa do meio ambiente reconhecem, e são as grandes beneficiadas. 

O mais importante está por vir. O maior desafio a enfrentar é sair da crise e recuperar as perdas desse período. Crise advinda do necessário isolamento social, do consequente desemprego causado pela desaceleração econômica. Infelizmente, alguns setores da sociedade e diversos formadores de opinião não percebem a nossa mudança de atitudes. Apoiam-se em crenças superadas pelo conhecimento científico e desviam-se das ações objetivas e necessárias num grave momento social como este, de escala global.

Todavia, estes grupos são uma minoria que caminha na contracorrente de uma sociedade visivelmente solidária. Nossa sociedade está dividida quanto às perspectivas do futuro. Uns acreditam que tudo isso, em algum momento, vai passar. Outros apostam que as mudanças vieram para ficar. Contudo, é inegável que a pandemia mudou nosso mundo e nos transformou como pessoas. Hoje, quatro meses depois de o vírus chegar ao Brasil, percebemos que, o que parecia um tsunami, a bem da verdade, pode ser o novo nível da maré. Não teremos nossa vida de volta como era antes, até porque não resgataremos as milhares de vidas que se foram sem ao menos nos despedirmos.

Compartilhar riquezas

A mineração, é inegável, pode ter um papel fundamental na superação deste agravado quadro social. 

É nossa obrigação não permitir que esta fragilidade se eternize, que sejamos sempre reféns dessa onda. Para tanto, sabemos a receita, ainda que não a pratiquemos: reduzir as diferenças e a trincheira social do nosso país! Inexiste outra atividade capaz de gerar tanta riqueza e usar tão pouco espaço na terra. Porém, os recursos minerais são finitos. Portanto, no aproveitamento desses recursos, os protagonistas do setor não podem estar sujeitos a operadores incompetentes ou serem submetidos a maus administradores públicos. Cabe à administração pública, apoiar a população na fiscalização e na cobrança do uso adequado e aplicação das riquezas minerais do Brasil.

É possível construir um novo acordo em nossa sociedade e despertar para uma nova dinâmica econômico-social. E, talvez, a melhor forma de distribuirmos a responsabilidade que nos cabe na sociedade brasileira, seja dividirmos entre diversos parceiros o ganho e o risco da atividade mineral. 

Um bom exemplo dessa coparticipação na responsabilidade dos investimentos minerais surgiu recentemente. A mídia anuncia a primeira junior company a fazer uma captação no mercado brasileiro - a Aura Minerals. A empresa é do grupo que criou a Yamana Gold, que vale hoje C$ 7 bilhões (dólares canadenses) e nasceu com o valor de C$ 100 milhões em 2003. É uma oportunidade única, pois, administrada por brasileiros, a Aura detém ativos majoritariamente nacionais em operação e outra parte desses ativos para serem desenvolvidos.

Além disso, a empresa diversifica seus riscos com atividades nos EUA, Colômbia, Honduras e México. Por que vislumbramos uma oportunidade? Porque os eventuais ganhos do setor poderão ser acessíveis aos investidores brasileiros em todos os passos da participação da Aura na Bolsa de Valores (B3), e o desenvolvimento chegará igualmente aos locais das minas de Almas, Matupá, Ernesto e Pau a Pique, ou seja, é o capital brasileiro ajudando a desenvolver o Brasil! Este tem sido exatamente o diferencial dos países como Canadá e Austrália, onde a mineração se desenvolveu exponencialmente, pois, lá, esses ganhos foram divididos principalmente entre os cidadãos daqueles países. Tomemos como exemplo a Yamana, com ativos brasileiros. A empresa foi listada na bolsa de valores do Canadá, e os acionistas que investiram naquela oportunidade C$ 1.000, em 2003 e, hoje, possuem quase C$ 7.000, sem contar os dividendos recebidos anualmente entre 0,8% e 3,8% ao ano, nos últimos 17 anos.

Então, é importante que alertar: enquanto nosso país não acordar para importância do setor mineral, e construir esse modelo econômico como o do Canadá ou da Austrália, esse ganho terá usufruto apenas dos investidores estrangeiros, que já participam dessa modalidade de investimento.

Sua adoção no Brasil, no entanto, pode ser uma oferta de oportunidades que podem ser compartilhadas com os brasileiros. Credit Swiss, XP, Safra e Itaú são grandes agentes financeiros por trás desta iniciativa da Aura, e são os responsáveis pelo processo de listagem no B3 em São Paulo. Infelizmente, esta é uma rara e isolada oportunidade, enquanto nosso país não adotar uma política de prioridade para o setor mineral, pois o setor financeiro raramente vai se interessar por oportunidades de risco sem tradição. E se o faz pela Aura, é porque a empresa contém ativos maduros, oferece baixo risco e entrou no mercado com atores conhecidos, num momento de baixas taxas de juros estes agentes despertam para mineração como forma de remunerar os brasileiros num novo momento da economia nacional marcado pela baixa dos juros.

A onda

O desafio é fomentar outras ”Auras“ e desenvolver no mercado brasileiro um conhecimento sobre como são instituídos esses ativos e como eles se tornam atrativos para os bancos e para as corretoras. A fórmula é muito mais simples do que parece. Com uma política de incentivo fiscal adequada e a instituição de uma bolsa de valores especializada nos ativos minerais será possível aumentar a diversidade de oportunidades e a oferta de bens minerais.

Assim fazem o Canadá, a Austrália, a Grã-Bretanha e, mais recentemente, Peru e Chile se integraram a esta prática. Dessa forma, obtém-se uma relação ganha-ganha generalizada, em que, com um ambiente de negócios dinâmico, se geram empregos (técnicos, geólogos, e engenheiros, advogados, contadores e trabalhadores qualificados em geral), impostos, internalização de progresso, desenvolvimento e, principalmente, a valorização das ações e da renda como da Yamana. Ali, os 49% das ações estão nas mãos de investidores individuais canadenses e americanos, que reinvestem tais recursos no país, neste caso Canadá e EUA, onde está listada e onde são residentes.

Caso contrário, se insistirmos no modelo atual, como defendem algumas lideranças ao privilegiar acordos com bolsas estrangeiras, continuaremos a ser um país de raras e escassas oportunidades no aproveitamento das nossas riquezas.

E, quando as identificarmos, dividiremos exclusivamente os bons frutos com estrangeiros, porque não estaremos maduros e hábeis o suficiente para oferecer oportunidades semelhantes aos brasileiros. Torcemos pelo sucesso do lançamento da Aura. Que sua entrada na Bolsa de Valores no Brasil acorde nossos líderes políticos e empresariais, de tal modo que esta onda, que se aproxima agora, possa ser surfada por nós, e não nos afogue na perda da oportunidade do crescimento e da saída da crise econômica que vivemos de forma pujante e competitiva.

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